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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Olá Pai.


Já se passaram 8 anos desde que me deixaste. É incrível como o tempo passa, não é?
Que te posso contar sobre estes anos? Da ultima vez que falamos tinha eu feito 25 anos, e a ultima coisa que me disseste, ao telefone do hospital, era que ainda ias passar o Natal a casa. E não te enganaste. Passaste na tua casa, aí em cima, a olhar por mim.
Sabes que ainda me recordo como hoje, quando soube que tinhas partido pela Geninha. E perdoa me, pai, mas eu não chorei. Não senti a tua perda como eu acharia que ia sentir. No fundo eu sentia que era mentira e que no dia seguinte ia receber uma chamada tua com a tua habitual deixa: "Olá Andorinha".
Até quando te vi na capela, não queria crer que eras tu.
Os dias passavam depois de ti e o telefone não tocava e a verdade começava a pesar em mim....
Foi difícil viver sem ti.
A única coisa que me resta de ti são duas fotografias tiradas pelo meu telemóvel foleiro e a foto do teu obtituário em que nem sequer o meu nome consta... Mas não faz mal, o meu amor por ti não se reflecte ali.

Sabes o jipe que parcialmente me ofereceste? ainda o tenho ali na garagem... Velhinho, mas com aquele lugar no coração que ninguém consegue arrancar. Eu sei, deves estar a abanar a cabeça a insistir para eu o ir arranjar, eu sei...
Custou-me tanto os 2 anos seguintes em que tive de o pagar sozinha... Aprendi o que custa viver por mim.

Sabes que casei? Um homem maravilhoso escolheu-me para esposa... Bom, na verdade, escolhemos nos um ao outro...
Sabes que ele tem um pouco de ti?
Tem a tua generosidade, o teu afecto e... o teu signo... Não te rias, eu sei que não te guias por isso.
Nunca fui tão feliz... ás vezes até tenho medo de ser feliz demais....

Sabes quem foi a madrinha? A Joana, de quem tu tanto gostavas.... após todos estes anos e muitos meses de ausência uma da outra ainda somos as melhores amigas...
Pai, posso te pedir para que se puderes, olhares por ela também?

Tive o casamento que quis... com o vestido que quis. Viste como era bonito? Ainda hoje lhe toquei e ainda senti as borboletas no estômago... Sei que desaprovaste a cor do meu cabelo, mas pronto, não fiques zangado comigo.

Temos uma cadela. Graças a Deus herdei de ti o amor pelos animais... Ainda me lembro o quanto sofreste pela morte do teu Pipoca, mas espero que agora ele te esteja a fazer companhia e que aí em cima, vocês aproveitem os vossos passeios juntos.
A nossa Elune para mim é uma alma antiga, quase humana, ás vezes dou por mim a pensar que és tu que por vezes me vês pelos olhos dela.
Se assim é, espero que estejas orgulhoso da forma como a tenho criado.

Entretanto mudei de emprego, fiquei desempregada e entrei na faculdade... Enfermagem, acreditas? Mas não fui, desculpa, pois arranjei emprego aqui...
Sou sincera pai, é uma merda de emprego (desculpa), mas é a verdade... é uma preciosidade nos tempos que correm... mas não posso dizer que o adoro. Longe disso. Mas a verdade é que nem hoje sei o que quero ser. Porquê ser apenas uma coisa, quando me posso descobrir todos os dias?
Um dia sou maquilhadora, noutro dia fotografa, noutro escritora, artesã, treinadora de cães, programadora, designer, florista, psicóloga.... Todos aqueles anos todos a achar que não servia para nada e descobri que até tenho jeito para algumas coisas... bem, mais para umas do que outras... Posso ser tudo o que eu quiser.... Mas ninguém consegue viver a vida sem dinheiro... e por isso me mantenho lá.

Finalmente acho que descobriram o meu problema de saúde... pelos visto sou intolerante ao glúten... Adeusinho ás sandes de presunto que tantas vezes comi contigo, acompanhadas pelos Sumol de ananás.... Lembras te?
Caramba, tantas qualidades que aprendi contigo...
A minha paixão pelos petiscos, a minha predilecção pelas tasquinhas em vez dos restaurantes finos.
As pastuscadas com os amigos... Ahhh... Os lanches contigo e com o Sr. Artur, que tantas vezes te fez a cabeça para que me desses aquele brinquedo que tanto queria. Dá lhe um abraço por mim, e um obrigada.
Lembro me do Sr. Adelino, do sr. Paiva  do seu mau-feitio, das discussões sobre política e das sardinhas assadas lá em frente ao Bar Azul, regadas pelo azeite maravilhoso de Trás-os Montes.
Sabes que dei a Provar ao B. e ele adorou?
Sei que ele deve estar em pulgas para voltar a Lamas de Orelhão e comer a posta, a alheira e o pão mergulhado em azeite...
Até a mim está a abrir o apetite.

Dá um beijinho á tia Odete que deve estar aí ao teu lado. Custou me muito ver o sofrimento da Esmeraldinha, a pessoa que me tratou tão bem sempre que me recebeu em casa... O carinho e a gratidão que lhe tenho são enormes...
Ainda não lhe liguei, desculpa, sabes que sou acanhada para essas coisas. Espero que entendas.

Este ano é o que te tenho para te contar. Espero que para o próximo te possa contar mais algumas novidades. Um abraço apertado de saudades e um beijo do tamanho do mundo.
Da tua filha, ´
Andreia.

4 comentários:

  1. Porra Andreia. Continua a escrever assim e fico sem lágrimas. Não vejo o meu há 22 anos. Tinha 36 anos quando o levaram. Podia dizer que se foi embora. Mas ele nunca aceitou. Quando já todos pediamos que Deus o levasse (Deus ou o Universo, sei lá... ) porque é desumano alguem sofrer durante 7 anos o que ele sofreu, ver a carne rasgar e apodrecer, ter que caminhar de bengala, ate não conseguir andar mais, lidar com a discriminação de ignorantes, saber de antemão que vai ter a vida interrompida e que jamais conhecerá netos, menos verá as filhas adultas... ele, dias antes de morrer dizia sempre que queria viver, a chorar.. eu tenho mais um ano que ele tinha quando morreu. Enfim. Nunca aceitarei a morte. Nem a dele, nem a de uma amiga minha. Provavelmente nem a de ninguem. Parece que vim aqui desabafar afinal. Desculpa la... Beijinho!

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    1. Querida Marta, perdoa-me por te ter tocado dessa forma. Não era minha intenção que ficasses triste.
      Eu como recordo sempre as coisas e os momentos bons que tive com ele e, enquanto a saudade não bate, eu tenho um sorriso nos lábios sempre que falo nele.
      A saudade bate por isso mesmo, pela falta das coisas boas que tinha com o meu pai.
      A falta que ele me faz é imensurável.
      Mas também tenho a esperança de o voltar a ver um dia.
      O meu pai já não era uma pessoa jovem. Eu é que era demasiado jovem para ficar sem pai, como tu deves entender tão bem...
      Beijinhos muito grandes, querida.
      Cheers :)

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  2. As pessoas partem e levam um pouco do nós. Mas a verdade, é que muitas vezes continuamos a senti-las como se estivessem aqui, ao nosso lado e acredito que estejam. Só não fisicamente. Um beijinho para ti, que 2015 venha acompanhado de tudo o que mais desejas*

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    1. Inês, muito obrigada pelas tuas palavras e desejos amáveis.
      O meu pai "está" muitas vezes comigo. Eu sinto que sim e quero acreditar. Principalmente sei que é ele que me dá na cabeça e me impede de tomar decisões erradas... Eu sei que sim.
      Beijinhos, querida.
      Cheers :)

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