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terça-feira, 10 de março de 2015

Meninos tímidos éramos nós.


Hoje o B estava a comentar comigo acerca de uma notícia que leu em que uma criança morreu vítima de ferimentos infligidos pelo professor. Foi no Egipto.
Imediatamente me levou de volta à minha infância.

Tive a mesma professora desde a primeira classe até à quarta. Uma professora com os seus 40 anos na altura. Fria, distante. Na minha pequena turma havia meninos e meninas de uma instituição.
Lembro me que éramos uma turma de meninos sossegados. Tímidos até.
Excepto o J., um dos meninos da instituição. Era rebelde e exuberante e a razão pela qual a notícia me fez lembrar da minha infância, eram as coças que o J. apanhava da professora.
E quando digo coça, não digo réguadas nas mãos. Digo coça mesmo. Que sempre assistíamos, horrorizados e com medo. Crianças de 7 e 8 anos.
Levei uma vez réguadas nas mãos, não por me ter portado mal, mas porque dei erros num ditado, duas réguadas com uma régua de madeira grossa, uma por cada erro. Ainda me consigo lembrar do pânico na barriga enquanto estava na fila para levar nas mãos.
Decidi a partir daí não levar mais e não levei. Mas assistia á rebeldia do J. e consequente castigo físico da professora.

Foi a partir daí que comecei a não suportar violência e gritos. Foi o começo de um trauma e uma obsessão pela gramática. Aquela dor nas mãos ainda me está bem presente. Posso não construir bem um texto, mas não suporto dar erros gramaticais.
Olhando para trás, começo a descortinar os motivos da professora bater daquela maneira naquele menino rebelde. No fundo eu via a sua frustração com a vida, via, mas era demasiado criança e inocente para perceber.
Era uma mulher casada, magra com uns óculos enormes pousados no nariz, com os seus 40 anos enrugados, era uma mulher que não devia nada á beleza física e intelectual. Tipo xoninhas, infeliz. O marido era igual. Pequenino, de oculinhos, que olhando agora, como adulta, não atraía nem a última panela sem testo. O filho, um miúdo mimado e também de óculos. Uma família de xoninhas que não faz mais nada senão cruzar os braços e repreender toda a gente por cima dos óculos pousados no nariz.

Descarregava toda a tensão naquela criança que não tinha quem o protegesse.
Parecia as vezes estar á espera de uma escorregadela de alguém para começarmos a ver a escalada de emoções nela.

É estranho, mas aquelas réguadas e certos comportamentos daquela professora fez de mim parte do que sou hoje.
Muitas vezes ensinou-me educação. O "por favor", o "obrigada" , o "desculpe", e muitas mais.
Coisas que faltam a muita gente, por este ciber-espaço fora.
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Today B was telling me about some news he had red about a child that died due to injuries inflicted by the teacher. In Egipt.
It took me right away to my own childhood.

I've had the same teacher from the first grade till the fourth. A teacher in her mid-forties. Cold-hearted, distant. In my small class there was also children from a local institution.
We were quiet children, shy, even.
Except for J., one of the boys from the institution. He was a rebel and exuberant child and the reason that that news made me remind of my childhood, was the beatings that J. got from the teacher. And when i say beatings, i don't mean beating on the hands, i mean real beatings. We've always watched, horrified and scared. Children of 7 and 8 years old.
I once had hand beatings, not for misbehaving, but for the misswriting of a text. 2 hand beatings with a thick wooden ruler, one for each error. I can still remember the panic in my stomach when i was in the line to get hand beaten.
I've decided not to make gramatical mistakes again so i won't get beaten anymore. But i've watched the misbehaving of J. and the physical consequences afterwards, from our teacher.

Since then, i can't stand violence and screaming. It was the begining of a trauma and an obsession for grammar. I may not construct a good enough text but i can't stand making grammar errors.
Looking backwards, i've began to unreavel the teacher's motives to hurt that rebel child. Deep down i saw her frustration with life, i saw it, but i was too much of a child and inocent to understand it.
She was a married woman, very thin with huge glasses hanging on the end of her nose, with her wrinkly mid-forties, she wasn't a beautiful woman or even pretty, either physical or intellectually. Unhappy.
Her husband was the same. Small, with glasses, that seeing now as an adult, he couldn't physically atract anyone. Her child, a spoiled kid also with glasses. A family that does nothing but crossing their arms over their chest and complain about everything over the glasses on their nose.
She distressed all of her anger on that child who didn't had anyone to protect him.

It's strange, but those hand beatings and some of that teacher behaviour, made me part of what i am today.
It taught me manners. How to behave with others. The importance of "please", of "thank you", of "i am sorry", and many more. Things that lack too many people throughout the cyber-space.

Best of love,
Cheers :)

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